Reflexão das memórias na contemporaneidade

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Reflexão das memórias na contemporaneidade

Amanhece um dia frio, cinzento…

Levanto e cumpro as funções humanas diárias, sentir o corpo, caminhar, fazer a higiene… Sinto a água fria no rosto e me reconheço no espelho.

Caminho para as rogações diárias, falo com Èsù, Ancestral, Orunmilá e Ori….

As memórias vêm nas sensações, do aroma do café que trazem as lembranças infantis de mal acordar e sentir esse aroma forte, já preparado por minha mãe.

Nesse tempo, no rádio toca uma canção de Jorge Aragão, um samba, com um refrão: “respeite quem pôde chegar onde a gente chegou…”.

Isso me desperta memórias de uma trajetória espiritual.

Hoje se perdeu o respeito aos mais velhos, ou criou-se o culto de desvalorização?

Em um determinado período me recordo de Salvador, ser a grande Meca das religiões afro, se acreditava que todo o saber ioruba estava lá e que já se perderá em África…

Hoje nesse fluxo e refluxo como dizia Verger os papéis se inverteram novamente, e se coloca o Ifá como algo “novo”, talvez para muitos sim, mas como de costume vejo pessoas que até pouco tempo atrás não sabia mal partir um obi, e está ai como os doutores ifá.

Como sacerdote no candomblé Ketú, proveniente de uma casa matriz de Salvador, que serviu de modelo para tantos livros, teses e doutorados; sempre pesquisei a fundo e pessoalmente essas informações que começavam décadas atrás nos chegarem através de livros. Já que o que se sabia, morria dentro do asè.

Na prática conheci Ifá com essas pessoas que viajavam nos trazendo essas informações, muito antes de despencarem aqui os vendedores de obi, que mais tarde viraram “reis africanos”.

Ainda na época da internet discada, com aquele maldito chiado de conexão, sempre mantive fóruns de debates, em 1998 já falávamos de Ifá na internet precária e muitos anos antes já discutíamos e praticávamos Ifá.

Hoje, os neófitos recém-passados no efun, exibem suas fotos carecas como prêmios e já saem atacando mostrando sua nova grife.

Como citou Abimbola em 1977, “quando estudamos a literatura ioruba, o que estamos tentando fazer primeiro de tudo é entender através dela a sua cultura, o seu pensamento e como o povo ioruba faz uso da língua criando imagens, efeitos e situações reais ou imaginárias para visualizar a concepção do seu próprio universo (e) se considerarmos que Ifá possui mais de 153.600 versos , a quantidade de leitura oral ioruba coletada não passa de uma gota no oceano, e que a coleta deste material é um trabalho urgente, pois os que possuem esta tradição estão indo embora, e a sociedade nigeriana moderna não está dando continuidade à transmissão das tradições de pai para filho, correndo o risco de se perder muito da literatura oral ioruba, ao menos que haja um enorme esforço atual de coleta de tradição oral”.

Concordo com Abimbola, por isso busco aqui nesse espaço e em outros, sempre trazer a informação destes achados oral ioruba, pois se foi o tempo que o saber era poder; e Ifá preza que levemos sua palavra.

Veja bem, Abimbola disse a citação acima em 1977, hoje se perde muito e o pouco que alguns adquirem trata de taxar de verdade absoluta sendo muita dessas verdades mera ctrl C + ctrl V (copia e colar).

É necessário um estudo profundo sobre a origem das informações, e acima de tudo “respeito” a nós que chegamos até aqui.

Essa gota no oceano que nós temos, sempre será a mesma, pois não será mais possível esse resgate profundo de tudo.

Então a questão dessa memória contemporânea se traduz em uma questão: – aprendemos para evoluir, ou para ter a pretensão passada de “poder”?

Até que ponto irá essa competividade, essa sede de poder?

É muito melhor dizer não sei, do que inventar novos cultos.

Ou querer reinventar o que já se perdeu criando novos cultos.

Essa é a mecânica humana, criando, inventando.

Memórias…

Tomo um gole de café, e me vem a imagem de uma saudosa senhora do culto, que com um olhar e toque humano, nos acalanta muito mais que “grifes estereotipadas”.

Nossa memória pede humanização, respeito e muito caráter.

Agbo ato.

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cropped-cropped-oluwo.jpgSe você esta aqui é porque Ifá lhe encontrou, agora você deve encontrar Ifá! 

Oluwo Ifagboun Ajisafe

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Mestre de Ifá consagrado em Lagos, Ṣàngó Walé, Alapini Ojeleke e Oluwo Ogboni.

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