
A palavra: ação e comunicação
onde se apresentam dados sobre o idioma, a importância e poder da palavra nesta sociedade de tradição oral e sobre os nomes das pessoas, objetos, cidades e seres
O testemunho, seja escrito ou oral, no fim não é mais que testemunho humano, e vale o que vale o homem
Hampate Bâ
O idioma
O idioma falado pelos iorubás é o iorubá, com variações de dialeto – egba, ekiti, ibadan, ife, ijebu, ijesa, ikale, ilaje, ondo, owo e oyo, por exemplo. De fato, cada nome destes refere-se simultaneamente a uma cidade, um dialeto e um agrupamento humano. Egba refere-se à cidade de Abeokuta, capital do estado de Ogun. Os egba, todos reconhecidos como descendentes de Oranyan, viviam principalmente em povoados e aldeias independentes umas das outras. Viram-se obrigados, em virtude das guerras, a unirem seus 153 povoados. E formaram Abeokuta.
O iorubá, língua tonal, faz uso de três tons simples e dois compostos. O acento agudo indica tom alto, o grave, tom baixo e a ausência de acento, tom médio. Destes tons simples decorrem sons compostos pela combinação agudo/grave (tom alto-descendente) ou grave/agudo (tom médio-descendente). Algumas letras – E, O, S – recebem um acento embaixo, indicador de alteração de som: E (é), O (ó), S (ch)
O alfabeto possui vinte e cinco letras:
A B D E E F G GB H I J K L M N O O P R S S T U W Y
O idioma iorubá integra o grupo lingüístico nigero-congolês e estima-se que seja falado por cerca de 25 milhões de pessoas. Este grupo lingüístico compõe, juntamente com o nilo-saariano e o afro-asiático, o conjunto de famílias lingüísticas existentes na Nigéria. (Olaniyan, 1985)
Tradição oral: importância e poder da palavra
Leave out my name from the gift
if it be a burden,
but keep my song
Rabindranath Tagore
A linguagem cotidiana dos iorubás, extremamente rica em metáforas, abrange um imenso conjunto de lendas, contos, fábulas, vigorosos ditados, provérbios, relatos mitológicos e históricos. A tradição oral realiza, conforme afirma Vansina (1982), dois níveis de registro: um consciente – registro de acontecimentos passados (crônicas orais de um reino ou genealogias de uma sociedade segmentária) e o outro, inconsciente – literatura oral em todas suas formas: epopéias; poemas, que incluem canções, cantigas e cânticos; fórmulas, que incluem provérbios, charadas, orações e genealogias e narrativas, compreendendo estas a maioria das mensagens históricas conscientes.
A tradição oral é entretanto, além desse imenso conjunto literário, a grande escola da vida. Baseada numa concepção de homem e de universo que confere à Palavra origem divina, nela reconhece um poder sagrado, criador, capaz de preservar e destruir. Hampate Bâ (1982), referindo-se às sociedades orais, aponta para o fato de que em tais sociedades o vínculo entre o homem e a palavra é muito forte: o homem permanece ligado à palavra que profere. Sendo a palavra uma força fundamental emanada do próprio Ser Supremo, possui caráter sagrado e a ela vinculam-se forças ocultas. A tradição africana concebe a fala como um dom de Deus: divina no sentido descendente e sagrada no sentido ascendente, materializa ou exterioriza as vibrações das forças. A fala humana, eco da fala divina, pode colocar em movimento forças latentes nos seres e objetos, como um homem que levanta e se volta ao ouvir seu nome. É, por essa razão, o grande agente ativo da magia africana (p. 186). Sendo o universo visível concebido e sentido como a concretização ou o envoltório de um universo invisível constituído de forças em perpétuo movimento, a ação mágica (manipulação das forças) geralmente almeja restaurar o equilíbrio perturbado e restabelecer a harmonia.
Naturalmente, o poder da palavra de um homem depende de como ele utiliza sua fala. O poder criador e operativo da palavra encontra-se em relação direta com a conservação ou com a ruptura da harmonia no homem, no mundo que o cerca e na relação entre o homem e o mundo. Por isso a mentira é considerada uma verdadeira lepra moral. A língua que falsifica a palavra vicia o sangue daquele que mente. Aquele que corrompe sua palavra, corrompe a si próprio, diz o adágio[1]. Quando alguém pensa uma coisa e diz outra, separa-se de si mesmo, rompendo a unidade sagrada, reflexo da unidade cósmica. Cria desarmonia ao redor de si e em seu próprio interior.
Cuida-te para não te separares de ti mesmo. É melhor que o mundo fique separado de ti do que tu separado de ti mesmo. Esta relação homem/palavra, em que a mentira não tem lugar, é particularmente enfatizada quando se trata de transmitir palavras herdadas de ancestrais ou de pessoas idosas, na corrente de transmissão oral. O tradicionalista é disciplinado interiormente, preparado para jamais mentir, considerado um homem bem equilibrado, senhor das forças que o habitam. Ao seu redor as coisas se ordenam e as perturbações se aquietam.
Disciplinar a palavra significa também não utilizá-la imprudentemente. Se constitui a exteriorização das vibrações de forças interiores, inversamente, a força interior nasce da interiorização da fala. O grau de evolução de um adepto no Komo, por exemplo, não é medido pela quantidade de palavras que conhece e sim pela conformidade de sua vida a tais palavras. (Hampate Bâ, 1982)
Assinala Leite (1992) a existência de duas grandes modalidades da palavra: a exotérica, de domínio mais extenso e comum, ligada aos processos menos complexos de socialização e a esotérica, de domínio restrito aos nela iniciados, que atinge os mais elevados níveis de conhecimento e abstração.
Os iorubás consideram a palavra sete vezes mais poderosa que qualquer rito ou preparado mágico. Consideram seu poder criativo não-restrito ao momento da Criação mas passível de ação atual. Uma vez pronunciada desencadeia resultados por vezes imprevisíveis. Conecta a mente humana à matéria, permitindo a ação daquela sobre esta.
Sociedades negro-africanas que adotaram a não-utilização da escrita para transmissão do conhecimento desenvolveram dispositivos civilizatórios capazes de possibilitar tal transmissão. Ausência de escrita deve ser confundida com analfabetismo? Entrava o “progresso” ou o “desenvolvimento”? Diante dessas questões, Leite (1992) chama a atenção para a importância da postura adotada ante o fenômeno: se o olhar se deposita sobre a África-objeto, observada com visão periférica, ocorre a tendência a responder afirmativamente. Porém, se observada com visão interna, a África-sujeito revela ser a palavra um elemento vital da personalidade e da sociedade, dado que o binômio força vital/palavra constitui elemento primordial na configuração do indivíduo e do grupo.
Lembra Vansina (1982) – utilizando expressão empregada por H. Moniot – que toda tradição possui uma superfície social, que garante sua transmissão. Por cumprir uma função, existe e, se não a cumpre, sua existência perde sentido e é abandonada pela instituição que a sustenta. Todo texto oral, desde que se trate de uma elocução importante, deve ser escutado, cuidadosamente examinado e com ele deve-se conviver internamente, como um poema. Somente assim podem ser alcançados seus múltiplos significados.
Sobre os nomes das pessoas, objetos, cidades e seres
Grande importância é atribuída aos nomes de pessoas, objetos, cidades e seres. Nada existe até ser nomeado e os nomes não são apenas termos abstratos, escolhidos ao acaso e sim palavras carregadas de significado. Constituem-se a partir da contração de uma ou mais sentenças. O nome Olukemi, por exemplo, constitui contração de Oluwa ke mi – Oluwa = Deus/ ke = cuida/ mi = de mim: Deus cuida de mim. Olawale é contração de Ola wa ile: Ola = honra/ wa = chega/ ile = casa: A honra chega à nossa casa. Enuncia que algo honorável ou espetacular ocorreu imediatamente antes ou por ocasião do nascimento dessa criança. Babatunde, contração de baba = pai/ tun = novamente, repetido, contínuo/ de = vir, significa: O pai voltou.
Alguns nomes, determinados pelas circunstâncias de nascimento, são considerados nome com o qual a criança nasce. Por exemplo, Kehinde, literalmente, o último a chegar é, entre os gêmeos, o espírito mais velho, que vem ao mundo em segundo lugar, enquanto Taiwo, literalmente, vai experimentar a vida, é o espírito mais novo, que chega ao mundo em primeiro lugar. Idowu é a criança nascida logo após um parto de gêmeos[2] e Ige, o nascido com apresentação dos pés.
Outros nomes, determinados por circunstâncias domésticas prevalecentes na ocasião do nascimento, são considerados nome que a criança recebe ao nascer. Biodun, por exemplo, é pessoa nascida em data festiva – natal, festival de Orixás, último dia do ano, etc.
Não raramente, crianças recebem nomes em homenagem a orixás. Salami (1990) reuniu alguns exemplos dos quais selecionamos alguns para apresentar neste contexto. Por exemplo, em homenagem a Exu temos Esubiyi – Exu deu nascimento a este; Esugbayila – Exu salvou esta criança; Esurounbi – Exu escolheu alguém para dar-lhe nascimento; Esutoosin – Exu é suficientemente grande para ser cultuado.
Em homenagem a Xangô: Sangokunle – Xangô enche a casa (com sua graça); Sereyemí – O sere combina comigo (aponta para a importância do uso do sere na evocação de Xangô); Sangotosin – Xangô é suficientemente grande para ser venerado; Sangotola – Xangô é suficientemente grande para trazer riqueza e alegria; Sangosanya – Xangô me deu apoio; Sangogbami – Xangô me socorreu.
Em homenagem a Oya: Oyabola – Oya vem com prosperidade e saúde; Oyajide – Oya respondeu com rapidez; Oyadola – Oya me fez nascer próspero e nobre; Oyarohunbi – Oya dá vida aos seres; Oyayale – Oya veio para casa; Oyabunmi – Oya me presenteou; Omilola – A água traz prosperidade; Oyatunbi – Oya me reviveu (nome dado à criança abiku, cuja mãe se compromete a cultuar Oya, para que esse orixá garanta a sobrevivência da criança); Oyajide – Oya respondeu com rapidez (dado à criança cuja mãe conseguiu engravidar graças à ajuda de Oya); Oyadola – Oya me fez nascer mais próspero e nobre (nome atribuído à criança cujo nascimento trouxe grande prosperidade à família).
Homenageiam Oxum: Osundare – Oxum me favoreceu; Osundola – Oxum tornou-me próspero; Osunfunke – Oxum me deu esta (criança) para cuidar; Osuntunjí – Oxum me fez reviver; Osunkunle – Oxum encheu a casa de coisas boas; Osuntunbí – Oxum me fez renascer; Omidire – A água que se tornou boa; Omiseun – A água foi generosa comigo; Orisatunji – O orixá me reviveu; Orisadola – O orixá me fez próspero e nobre; Orisagbemi – O orixá me apoiou; Orisatosin – O orixá é suficientemente grande para ser venerado.
O nome pode expressar máximas morais, como Olusuwalu, por exemplo, que significa Deus associou comportamentos e que consiste na exaltação da coexistência pacífica.
Além do próprio nome, as pessoas possuem um oriki que permite sua identificação. Oriki, palavra composta por ori + ki, significa saudar ou louvar (ki) o ori ou a origem do nomeado. Por relatar feitos e características do indivíduo, da família, da cidade ou do orixá a quem se refere, exerce função documental. Mas a função dos oriki não se detém aí, dado que muitos deles constituem nomes primordiais secretos, místicos ou de fundamento de espíritos, divindades, animais, plantas, seres humanos, moléstias etc.
Alguns oriki relatam ocorrências do nascimento individual: gêmeos, criança nascida logo após um parto de gêmeos, nascida com o cordão umbilical à volta do pescoço ou apresentação dos pés, cada caso tem seu oriki particular. Há oriki dedicados a animais. Vejamos alguns dos exemplos apresentados por Salami (1990): o oriki do javali diz:
Ahuledelepa
Animal que cava o chão
Koko b’oju je
animal com olhos remelentos
Um dos oriki da cidade de Abeokuta informa sobre a geografia da região – cidade cercada de pedras; outro traz informações sobre a história – serviu de esconderijo em períodos de invasão, outro, sobre aspectos de ordem espiritual – está sob a proteção de Olumo:
Abeokuta ilu Egba
Abeokuta, a cidade dos Egba
Ilu fi gbogbo ile s’okuta
A cidade é cercada de pedras
Okuta o won n’ile wa
A pedra é abundante em nossa terra
Awa l’omo Olumo
Nós somos filhos de Olumo
Abe Olumo
Embaixo da pedra Olumo
Ibi a fi ori mo si
onde nos escondemos (nas épocas de invasão)
Xangô é denominado Oba Koso – O rei que não se enforcou; Ogiri ekun – Leopardo feroz; Alado – Aquele que racha o pilão; Oluaso – Dragão Faiscante; A san giri – Aquele que racha paredes; Alagiri – Aquele que abre paredes; Alafín Oyo – Rei de Oyo. Oya é denominada Oya oriri – O vendaval; Ti n dagi lokeloke – A que corta a copa das árvores; Oya arina bora bi aso – Oya vestida de fogo. Oxum é chamada Osun Yeye-nimo – Graciosa mãe Oxum, plena em sabedoria; O wa-yanri-wa-yanrin kowo si – A que cava e cava a areia para esconder dinheiro; Obá é O tori owu, O kola si gbogbo ara – A que por ciúme se cobriu de incisões ornamentais.
Quando se pronuncia o oriki de um orixá, busca-se acesso mais fácil ao auxílio que pode advir de sua força. Alguns oriki, muito repetidos, constituem chaves para o entendimento do ser nomeado e para o apelo à manifestação de sua força e poder.
[1] Estes adágios são citados por Hampate Bâ em A Tradição Viva (1982)
[2] Apenas a título de curiosidade, observemos que na Umbanda, Ibeji (gêmeos) é sincretizado com Cosme e Damião e estes gêmeos se fazem sempre acompanhar de Doún, palavra que é certamente uma corruptela de Idowu
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Se você esta aqui é porque Ifá lhe encontrou, agora você deve encontrar Ifá!
