Obaluaiye [1]
A-soro-‘pe-l’erun
Aquele cujo nome não deve ser pronunciado durante a estação das secas
Obaluaiye, palavra constituída pela contração de Oba-‘lu’aiye, o rei que é o senhor da terra é também chamado Oluwa Aiye, Senhor da terra. A ele se pede licença para o uso da terra. Por exemplo, quando um iorubá vai jogar água fora da casa, no chão, normalmente diz: Ago o Olode! Desculpe-me, ó Olode! Olode é palavra originária da contração de Ol‘, abreviação de Oni (Senhor ou dono) e ode (aberto), significando, pois, Senhor (ou dono) do aberto. Sua permissão é solicitada em festas:
Deixe-me obter a permissão do senhor da terra,
Se ele nos permitirá dançar;
A hospitalidade de Obaluaiye é solicitada no cultivo da terra:
O fazendeiro poderia ser extraordinariamente agradado,
O algodão não queimaria
e desagradaria o fazendeiro;
O fazendeiro poderia ser extraordinariamente agradado,
Não manuseamos as ferramentas e desagradamos Olode;
Olode poderia ser extraordinariamente agradado.
É invocado pelos nomes Ile-gbona, terra quente e Baba, Pai, e não por seu nome original – Soponna[2], palavra que em iorubá significa varíola. Senhor da varíola, inspira terror e respeito por punir com essa doença os faltosos.
Seu castigo, como o de Xangô, é considerado punição nobre. Assim, quando alguém morre de varíola, sua morte não deve ser lamentada. Pelo contrário. Deve ser aceita com alegria e gratidão. Daí origina-se outro de seus nomes: Alapadupe – o que mata e a quem devemos ser agradecidos por haver morto. Alguns anciãos dizem que Obaluaiye é irmão mais novo de Xangô[3]. Esta crença leva os devotos de Xangô a considerarem-se imunes à fúria de Obaluaiye e os vice-versa. Uma expressão disso é a seguinte: Não há dano que o irmão mais velho possa infligir aos filhos do irmão mais novo. Estes orixás são tão familiares entre si que, segundo narrações tradicionais, Obaluaiye freqüentemente refere-se a Xangô em tom de brincadeira, dizendo, por exemplo, que quando Xangô vai destruir uma única pessoa, faz enorme alarde, com extraordinários efeitos de luz e som (relâmpagos e raios), enquanto ele próprio destruirá centenas de pessoas silenciosamente.
Obaluaiye proíbe a mentira, o envenenamento e a magia negra. Usa roupa vermelha e viaja quando o sol está bem quente. Por isso, as pessoas são desaconselhadas a usarem roupa vermelha e andarem sob o sol para não lhe causarem aborrecimento. Cuidados especiais devem ser tomados durante a estação das secas, de modo a não adotar nenhum procedimento que possa ofendê-lo. Isto é compreensível porque a varíola é mais freqüente e espalha-se mais facilmente durante esse período. Por ser particularmente atuante durante a estação das secas é chamado A-soro-‘pe-l’erun, Aquele cujo nome não deve ser pronunciado durante a estação das secas.
Seu santuário fica normalmente fora de casa ou da aldeia, às vezes, no bosque. Entretanto, pode permanecer no interior de casa ou da aldeia. Em seu assentamento encontramos um pote de barro de boca larga, chamado agbada, repousando sobre um montículo de terra. Ao lado, fica uma vassoura especial, feita de ose potu (sida carpinifolia) e untada com osun.
[1] Fonte: Awolalu & Dopamu, 1979
[2] Em português, Xapanã, cf. Dicionário Aurélio
[3] Chamo a atenção do leitor para o fato de haver um elemento comum às duas divindades – o fogo (calor): as febres de Obaluaiye e o poder incendiador de Xangô
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