reencarna

Nossa jornada no Aiyé

Muitos vieram procura soluções para seus problemas e sofrimentos, na sua maioria, foram causados pelo próprio indivíduo por opções próprias ou teimosia de não acatar as determinações de Ifá, e não aceitando seu destino. O Sofrimento é impossível negar que este sentimento, dolorido, faz parte da existência de absolutamente todos os seres humanos. São momentâneos, e custam graves inconvenientes. O que devemos cobiçar é viver sem sofrer muito. Aquele que sofre foge-lhe uma parte da existência. O mal é nocivo à plenitude da vida por que é sempre causa do aniquilamento. Quando o sofrimento nos ameaça, e receamos que as forças defensivas nos faleçam, suspendem-se os outros movimentos do nosso coração, e então pouco há que esperar de nós, por que se torna incerto o nosso destino. Normalmente, quando uma pessoa se vê obrigada pelo destino a passar por intensos momentos de dor, tende a lançar para os seres superiores a seguinte pergunta: “Por que eu, Senhor?” Se essas pessoas refletissem melhor, perguntariam: “Por que não eu, Senhor?” Sobre isso, sabiamente, o ateu Christopher Hitchens diz: “À pergunta cretina ‘Por que eu?’, o cosmos mal tem o trabalho de responder: ‘Por que não?”.

O bem-estar de grande número de indivíduos, que vivem retirados das agitações, depende mais da sua disposição habitual de pensamento que da influência de causas exteriores. A crise moral pode surpreendê-los e magoá-los momentaneamente; mas a força dos acontecimentos é meramente relativa. Os sofrimentos são mais ou menos intensos, conforme a época em que nos oprimem. O que ontem poderia aniquilar-me, levemente me incomoda hoje. Cinco minutos de reflexão me bastam. A maior parte dos objetos encerram e presentam, indiretamente pelo menos, as propriedades oportunas. Pô-las em ação é no que assenta o alinhamento da felicidade. Quem não sabe trabalhar com eles, fere-se. Discernir, isto é, refletir é o que mais importa.

Tua natureza divina não foi feita para ser aprisionada à sombra do sofrimento, fora do alcance de Ólòdúmáré, e sim para expandir, crescer, para assim, reencontrar sua real função.

És a flecha que tem por destino ser arremessada ao tronco do conhecimento e, se forças em direção contrária, cais em depressão, por negares ao teu ser a tua real necessidade que é a de estares livre, presente na tua realidade divina. Deves saber que as coisas não precisam acontecer nesta ordem.

Tens a opção em escolher novamente, sempre que sentires a ausência do teu coração em tuas decisões, ou seja, a ausência da paz de espírito. Volta, recolhe teu ser no silêncio que habita tua morada, e lá, começa por ti.

O que queres que não podes ter?

Nesta frase tão curta, reside todo o emaranhado de fios que te sufocam a cada dia. Começa por ti e em ti. Aprende a conhecer tuas reais necessidades e começa por elas. Uma a uma, purificando teu ser do sofrimento que tens te causado por todo este tempo. Desacredita da tua má sorte e põe tua atenção, teu coração no conhecimento que está dentro de ti, em silêncio, a esperar-te para dar-te a paz, a certeza de quem és.

” Para cultivar a sabedoria, é preciso força interior. Sem crescimento interno, é difícil conquistar a autoconfiança e a coragem necessárias. Sem elas, nossa vida se complica. O impossível torna-se possível com a força de vontade.”

O candomblé, apesar de ser uma religião extremamente lúdica, não se furta de ensinar aos seus adeptos que o sofrimento é inevitável para qualquer ser vivo. Essa religião milenar possui várias lendas através das quais ensina, entre outras coisas, que alguns dos sofrimentos pelos quais se passa na vida é uma questão de destino, enquanto outros são vivenciados por opção. Sobre o último caso, tem-se a narração que agora se encontra aqui escrita:

Quando Orunmilá, Ogun e Oxalá resolveram visitar o “mercado de sofrimento”, foram aconselhados a não ir logo, pois a ida ao mercado requeria, acima de tudo, que se tivesse paciência e resignação. Sabia-se que a pessoa que fosse capaz de suportar os sofrimentos existentes no mercado e que visitasse o local por três vezes receberia tesouros incomensuráveis.

O primeiro a tentar realizar essa difícil jornada foi Orunmilá. Muniu-se de búzios e quando chegou ao mercado, ajoelhou-se perante o porteiro, cujo nome era Cabra, e pagou o pedágio cobrado para que seu acesso fosse liberado. Orunmilá fez isso por três vezes e pôde receber o que tinha direito. Oxalá também quis fazer o mesmo que Orunmilá, só que este o aconselhou a não realizar tão difícil jornada, pois no mercado havia mesmo muito sofrimento. Oxalá reagiu afirmando: “Quem tem paciência para criar tantos filhos como eu, tem paciência para tudo!”

E assim seguiu Oxalá até o mercado. Ele pagou o pedágio a outro porteiro, chamado de Caracol. Oxalá fez isso mais duas vezes e recebeu o que lhe cabia. Chegando a vez de Ogun, este recebeu o alerta de que não poderia entrar no mercado portando sua faca e seu bastão. Por ser muito temperamental, e movido pela impulsividade, lá se foi Ogun com a faca e o bastão escondidos sob a roupa.

Chegando ao mercado, encontrou o porteiro Cão que cobrou o pedágio a Ogun, que achou uma afronta pagar algo para Cão, seu inimigo/amigo. Ogun, então, usou sua faca para decaptar Cão. Exu, que era o proprietário do mercado, ameaçou tanto Ogun que terminou por fazer com que ele fugisse para o mato. Os galhos e espinhos das árvores rasgaram a roupa de Ogun que, para se proteger, retirou folhas de palmeira (màrìwò) para cobrir o corpo desnudo. Ogun não respeitou as regras do Mercado de Sofrimento; não respeitou o sofrimento, e por isto foi severamente punido.

O sofrimento tem normas que precisam ser aceitas e cumpridas. Duas delas são a resignação e a paciência. Entretanto, a mais importante de todas elas é o respeito a sua própria dor e, consequentemente, à dor do outro. Escrevi este artigo por necessidade: uma necessidade de alma; uma necessidade cidadã. A indignação foi quem me guiou. É impossível para qualquer cidadão, seja ele um religioso ou não. Lembro-me a sabedoria de um provérbio africano que diz:

“Ti a ko ni atilẹyin awọn ijiya ti o kún agbọn a, a yoo ko gba nǹkankan mọ àgbáye a kekere gourd lati mu.

“Se não suportamos o sofrimento que enche um cesto, não receberemos os favores que enchem uma pequena cabaça de beber. ”

Ọmọkùnrin pele, ti wa ni irin ajo rẹ ati wálẹ; apata ati okuta ti o ti wa konge, ọkan nipa ọkan kuro.

Garoto encantador, que sua jornada seja encantada e iluminada; que as pedras e pedradas encontradas sejam, uma a uma, retiradas.

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ESCRITO POR
Olùwò Ifagboun Ajisafe

Mestre de Ifá consagrado em Lagos, Ṣàngó Walé, Alapini Ojeleke e Oluwo Ogboni.

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