Divindades femininas Oyá, Iemanjá, Oxum, Obá, Nanã Buruku

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yabas-principais

Divindades femininas

Oyá, Iemanjá, Oxum, Obá, Nanã  Buruku 

Oyá[1], senhora dos ventos e tempestades

Oya Oriri

Oyá tão linda

 que não se pode tirar os olhos de cima dela

Ekun ti nje ewe ata

Leopardo fêmea que come pimenta crua

Assim como os raios, relâmpagos e trovões são atribuídos a Xangô, os fortes ventos e as tempestades são considerados expressões do descontentamento de Oyá. A origem mítica do rio Niger (Odo Oya) é associada, também, a esta divindade. Um odu de Ifá, apresentado por Salami (1990), faz a seguinte narração dessa origem: Em tempos de guerra, o rei dos nupe consultou o oráculo para saber como prevenir-se contra uma invasão. Ifá disse ao rei que, caso encurralado, desse uma peça de tecido negro para ser rasgado por uma virgem. Entre as virgens, o rei elegeu sua própria filha. Diante do pai, dos oráculos e generais, a jovem rasgou o tecido negro: O ya – Ela cortou. Atirou as duas partes no chão, sob o olhar esperançoso do povo nupe. O pano transformou-se em negras águas que começaram a fluir, transformando o núcleo do reino numa ilha protegida.

Alguns mitos a apresentam como originária da cidade de Irá. Outros, como nascida na ilha fluvial de Jebba, em terra nupe, também local de origem de Torosi, mãe de Xangô. Oyá era esposa de Ogum e lutava lado a lado com o marido, usando espadas forjadas por ele. Um dia Xangô, elegante e atraente, chegou à Forja de Ougam. Envolveu-se em amores com Oyá e, ao surgir uma oportunidade fugiram juntos enquanto Ogum estava muito compenetrado em seu trabalho. Mais tarde, ao dar-se conta do ocorrido, procurou a mulher por toda parte e terminou por encontrá-la na floresta. Golpearam-se mutuamente com as espadas, sendo Ogum partido em sete e Oyá em nove partes. Conforme Salami (1990), havia dezesseis rainhas rivais, competindo pelo privilégio de ter a preferência de Xangô. Oyá foi a vitoriosa, graças a seu charme, personalidade e elegância de movimentos.

Alguns de seus oriki assim a evocam:

Ela é grande o bastante para carregar o chifre do búfalo

Oyá, que possui um marido poderoso

Mulher guerreira, mulher caçadora

Oyá, a charmosa,

que dispõe de coragem para morrer com seu marido

Vendaval da Morte

A mulher guerreira que carrega sua arma de fogo

Quando anda, sua vitalidade é como a do cavalo que trota

Eepa, Oyá, que tem nove filhos, eu te saúdo!

O que Xangô disser, Oyá vai interpretar

Vocês não sabem que Oyá vai entender

o que Xangô nem acabou de dizer?

O que ele quiser dizer, Oyá é quem dirá

Oyá, Leopardo fêmea que come pimenta crua

Oyá, o orixá que apoia seu marido

Mulher poderosa e forte, possui um corpo perfeito

Oyá, a charmosa e elegante, a mulher bela

O Grande Vendaval, que também venta suavemente.

Há um mito que a descreve como tendo nascido em Iwo. Essa versão a apresenta como uma mulher que vivia triste por não conseguir casamento e que após perambular pelas cidades a esmo, foi encontrada por sua família em Irá. No retorno para casa encontraram Xangô acompanhado de uma de suas esposas: Oxum. Assim que viu Oyá, quis casar-se com ela e foi aceito imediatamente. Ela veio a ser sua esposa predileta: Entre os dezesseis orixás femininos nas mãos de Xangô, Oyá se destacou por sua beleza, elegância e força.

Recebe cultos em toda a terra iorubá, principalmente por parte das mulheres. Seu santuário guarda objetos simbólicos – a espada, o chifre de búfalo e pedras originárias do rio Oyá; um pote com agbo (água para banhar os iniciados); água pura, para ser bebida por mulheres que desejam tornar-se férteis ou por pessoas doentes; o assentamento de Xangô ou uma estatueta que o represente. Os iniciados preferem beber desta água em lugar de outra qualquer, pois ela contem o axé do orixá. As contas dos colares dos devotos de Oyá são de cor marrom.


Iemanjá[2], senhora de todas as águas

Diante da casa da senhora dos barcos brota a prosperidade

No quintal da senhora dos barcos brotam pérolas

Iemanjá de seios fartos, somos os filhos das águas

Oxum, senhora das águas que fluem suavemente, senhora dos rios, dos metais nobres, da fertilidade e da prosperidade

Oxum, graciosa mãe, plena de sabedoria!

A estreita associação entre Iemanjá e Oxum permite que essas duas divindades sejam apresentadas em conjunto. Narra o mito, ter sido Oxum a primeira filha de Iemanjá. Esta, não conseguindo engravidar, consultou Ifá, recebendo a recomendação de dirigir-se ao rio próximo a sua casa antes do alvorecer, a cada cinco dias, levando oferendas e carregando um pote pintado de branco sobre a cabeça, sempre  acompanhada por um grupo de crianças cantando em coro. As oferendas incluíam egbo (canjica branca), yanrin (verdura), ekuru (inhame cozido e amassado com dendê), eko (mingau de milho branco), obi e orogbo. Chegando  ao rio deveria encher o pote de água e retornar, sempre acompanhada pelo coro infantil. A água devia ser despejada num pote chamado awe e durante o intervalo entre as caminhadas ao rio deveria beber dessa água e banhar-se com ela.

Após repetir esse ritual durante muito e muito tempo, Iemanjá finalmente engravidou. Não interrompeu as práticas rituais que foram se tornando cada vez mais penosas à medida que o processo gestacional se adiantava. Uma manhã, logo após entregar as oferendas, sentiu forte dor. Pediu às crianças que se afastassem, ajoelhou-se e logo ouviu o choro do bebê: nascera Oxum! Chamou as crianças e pediu a uma delas que fosse dar a notícia a Orumilá que, muito feliz, enviou um mensageiro para saudá-la.

No terceiro dia o umbigo da criança começou a sangrar e a despeito dos cuidados de Iemanjá, o sangue não estancava. Ifá foi consultado e configurou-se o Odu Ose Orogbe[3]:

A que possui uma gamela onde guarda dinheiro

Graciosa mãe, dona de muitos conhecimentos

que enfeita seus filhos com bronze

Ifá orientou quanto aos novos rituais necessários, complexos rituais que incluíam um agbo tutu, banho frio. Por isso, crianças nascidas graças à ajuda de Oxum, chamadas olomi tutu, aquele que usa água fria, devem banhar-se com água fria, seja qual for a temperatura ambiente[4].

Iemanjá sentia-se insegura quanto à saúde da filha e pediu ajuda a Ogum. Oxum estava apenas com seis dias de vida, quando ele adentrou a mata e, sob orientação de Ossaim, orixá da essência do mundo vegetal, apanhou folhas de yanrin e pimentas verdes e as colocou inteiras no pote. Somente quando a saúde da criança firmou, foi seu nome revelado por Ogun: Ose-n’ibu omi – Oxé nas profundezas das águas.

Oxum

Um texto citado por Elbein dos Santos (1986) refere-se a Oxum da seguinte maneira: No tempo da criação, quando Oxum estava vindo das profundezas do orun, Olodumare confiou-lhe o poder de zelar por cada uma das crianças criadas por Orixá, que nasceriam na terra. Oxum seria a provedora de crianças. Ela deveria fazer com que as crianças permanecessem no ventre de suas mães, assegurando-lhes medicamentos e tratamentos apropriados para evitar abortos e contratempos antes do nascimento … Não deveria encolerizar-se com ninguém a fim de não recusar crianças a inimigos e conceder gravidez a amigos. Foi a primeira Iya-mi encarregada de ser Olutoju awom omo – aquela que vela por todas as crianças e Alawoye omo – a que cura crianças.

Em seus oriki assim é evocada:

Oxum, graciosa mãe, plena de sabedoria!

Que enfeita seus filhos com bronze

Que fica muito tempo no fundo das águas gerando riquezas

Que se recolhe ao rio para cuidar das crianças

Que cava e cava a areia e nela enterra dinheiro

Mulher poderosa que não pode ser atacada

Mulheres louvam a fertilidade trazida por Oxum, repetindo: Yeye o, yeye o, yeye o. Oh, graciosa mãe, oh, graciosa mãe, oh, graciosa mãe! Alguns mitos referem-se a ela como Osun Osogbo – Oxum da cidade de Osogbo, outros enfatizam sua proximidade com Logunedé, ora apresentado como filho, ora como mensageiro, havendo entre ambos tão estreita relação que chegam a ser considerados complementares. Outros mitos, ainda, a apresentam como esposa de Ifá. E aqueles que a apresentam como esposa de Xangô narram que ao tomar conhecimento da morte do marido, ficou desesperada, transformou-se num rio.

Bastante cultuada em Osogbo, é considerada também, a divindade protetora de Abeokuta. Seus devotos freqüentemente dedicam-lhe um córrego ou rio, chamando-o de odo Osun – rio de Oxum, ao lado do qual colocam o santuário. Chamada mãe das crianças, a ela pertence a fertilidade de homens e mulheres. Todo ano, por ocasião do festival realizado em sua homenagem, mulheres estéreis tomam água de seu santuário esperando retornar no ano seguinte com os filhos por ela concedidos, para agradecerem a graça alcançada. Não apenas a fertilidade pertence a Oxum. A prosperidade também. Além disso, confere a seus devotos a desejada proteção contra acontecimentos adversos. Assim sendo, é invocada nas mais distintas circunstâncias, pois não há o que não possa fazer para ajudar seus devotos.

Os sacerdotes de Oxum, normalmente, trançam os cabelos de modo feminino e usam colares feitos de contas transparentes da cor do âmbar[5], tornozeleiras, braceletes e diversos objetos de bronze e metais amarelos. Seu assentamento guarda o ota (pedra); uma espada de metal amarelo ou um leque; uma tornozeleira; alguns búzios; moedas; pente; peregun; tecido branco. Ao lado fica um pote de água com seu axé. Em muitos assentamentos encontramos, também, estatuetas representando uma mulher de cabelos trançados, segurando  um bebê ou amamentando. É comum encontrarmos o assentamento de Logunedé junto ao de Oxum.

Aceita em sacrifício: galinha, gin, osun (espécie de giz vermelho), obi, ole (prato preparado com feijão moído), akara (bolinho parecido com o acarajé brasileiro) e eko (mingau preparado com amido de milho branco).

Obá[6]

E ke s’obinrin Sango

Para um caso que não se sabe como resolver

chame a mulher de Xangô.

Entre as esposas de Xangô, Obá ocupava o último posto. Inferiorizada em relação às demais por julgar-se incompetente para cozinhar e para vestir-se com elegância, de natureza frágil e dócil, por demais condescendente, tolerava muitas coisas que a desagradavam. Foi a primeira esposa a abandoná-lo quando ele ficou desesperado por haver destruído com magia seus bens e parte de seu povo. Ao deixar a casa, sem saber para onde ir nem o que fazer, pôs-se a chorar amargamente, desfazendo-se em lágrimas até transformar-se por completo num rio – o odo Oba. O grande estrondo verificado na confluência dos rios Oxum e Obá, é atribuído à rivalidade entre ambas.

Em seus oriki assim é evocada:

Oh Obá, mulher ciumenta, esposa de Xangô

vem correndo ouvir a nossa súplica

Obá, Obá, Obá

Orixá ciumento, terceira esposa de Xangô

Ela, que por ciumes fez incisðes ornamentais na pele

Que fala muito de seu marido

que anda nas madrugadas com as ayé

Obá, paciente, que come cabrito logo pela manhã

Obá não foi com o marido até Koso

ficou para discutir com Oxum sobre comida

… tomaram o marido de Obá

Obá entristeceu

Aceita em sacrifício: cabrito, galinha, galinha d’Angola, pato branco, pombo, igbin (caracol), obì, orogbo, pimenta da costa, canjica, eko e gin.

Nanã Buruku[7]

Oh, Buruku, o que te peço, se não quiseres conceder,

é da tua conta!  (oração ewe)

Oh, Buruku, deixa-me negociar

 sem nenhum proveito!   (oração iorubá)

Entre os ewe e os fon da República do Benin (Daomé) Deus é conhecido como Nanã Buluku. Adotada pelos egba sob o nome Buruku, veio a ser cultuada entre os iorubás como divindade e não como o Ser Supremo. Em ewe e fon, a expressão Nana Buruku tem  o seguinte significado: Nana = velho ou antigo / buruku é o nome de Deus. Assim, Nanã Buruku significa Deus Antigo. Foi levada para Abeokuta pelos sabe, um povo vizinho, mais especificamente, por uma mulher escrava e é considerada particularmente poderosa por ser filha do Ser Supremo. Por essa razão é chamado também de Omolu, literalmente, filho de Deus (Omo Oluwa: Omo = filho /Oluwa = Deus).

Tanto os ewe como os egba consideram Buruku andrógino. Entre os iorubás, é chamado Buruku, o aspecto masculino e Omolu, o feminino[8]. É cultuada principalmente por mulheres, sendo as formas ritualísticas semelhantes às adotadas pelos ewe e fon em seus cultos a Nanã -Buruku, o Ser Supremo.

Buruku, considerado uma divindade de temperamento difícil, responsável por muitas misérias e adversidades, se devidamente apaziguada, revela-se poderosa e benevolente. Seus iniciados não devem faltar às obrigações de culto, sob pena de tornarem-se vítimas de infortúnios. Os recém-nascidos, mulheres em adiantado estágio de gravidez, mulheres menstruadas ou que acabaram de ter relações sexuais são proibidas de aproximarem-se  do santuário. Apenas após a menopausa podem as mulheres tornarem-se sacerdotisas de Nanã Buruku e são as únicas autorizadas a oferecer sacrifícios, devendo os demais permanecer do lado de fora do santuário.

Seu santuário possui, geralmente, dois aposentos, num dos quais se guarda os objetos sagrados, nele podendo entrar apenas a sacerdotisa e quatro ou cinco de suas co-oficiantes. Entre os ewe, os assentamentos de Buruku freqüentemente ficam a céu aberto. Consistem num montículo de barro no qual estão embutidos dois ou três potes de cerâmica de boca voltada para baixo. Tais potes permanecem ocultos a olhos profanos. Nanã aceita em sacrifício água fria, obi, orobô, óleo de palmeira, banana, mingau e animais.

Em seu santuário é guardado o edon (metal), que consiste em imagens gravadas em ferro, uma representando o aspecto masculino da divindade e outra o feminino. Ali são guardadas também outras imagens belamente esculpidas em madeira, com distintos formatos, algumas representando mulheres grávidas ou carregando bebês às costas, ou oferecendo o seio ao filho. Tais imagens, expressões dos tabus da divindade, são retiradas do santuário e carregadas em procissão nos festivais anuais, que duram três meses.

Durante o festival em sua homenagem os aspirantes à iniciação recebem instruções e perdem temporariamente a capacidade de falar: regridem a estágios anteriores do desenvolvimento e falam como criancinhas que estivessem ainda aprendendo. No final desse período, resgatam a capacidade lingüística e retornam para casa entre canções e outras expressões de regozijo.


[1] Fonte: Salami, 1990

[2] Fonte: Salami, 1990

[3] No jogo erindilogun, dos dezesseis buzios, ose é a fala de Oxum

[4] Não esqueçamos que qualquer temperatura ambiente na terra iorubá é sempre temperatura elevada. Pode ser  um equívoco aplicar o mesmo princípio em países de clima frio

[5] Essas contas transparentes cor de âmbar são um dos principais ítens no preparo de awure – magia que traz sorte

[6] Fonte: Salami, 1990

[7] Fonte: Awolalu & Dopamu, 1979

[8] É interessante assinalar que no Brasil Omolu e Obaluaiê são considerados como a mesma divindade (masculina), enquanto Nanã Buruku é considerada uma divindade feminina

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ESCRITO POR
Olùwò Ifagboun Ajisafe

Mestre de Ifá consagrado em Lagos, Ṣàngó Walé, Alapini Ojeleke e Oluwo Ogboni.

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