A diferença de pai e bàbá

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Ser pai, o conceito de PAI em Ifá.

O bàbáláwo (bàbá ni awo = o pai que tem o segredo).

Na diáspora o termo bàbá (pai), não se refere apenas ao pai biológico (O progenitor. O homem que tem filhos. Aquele que cria e educa os filhos), bàbá se denomina aquele que detém o poder, o conhecimento ou algo em questão, que tem discípulos.

Aqui nesse ponto temos então a diferença a este sentido se analisar o conceito yorùbá do conceito afro-religioso.

No Brasil, primeiramente no culto afro-brasileiro; foi um culto de aculturação, ou seja várias religiões se fundiram dando inicio ao Candomblé, que se expressará como o próprio nome diz “dança”.

Foi uma forma dos recém-inseridos (forçosamente e escravizados) trazerem lembranças de sua terra natal.

Através da encenação da dança dos Òrìsa, se perpetuava a história de seus ancestrais, e todos aqueles elementos que outrora eram distintos e mesmo os cultos e sociedades secretas tribais e até de rivais foram mesclados, fundidos em um único culto.

Nesse momento, por seguir um modelo patriarcal europeu as mulheres também assumiram esse papel no culto como ìyá (mãe), e por estarem mais próximas dos afazeres mais domésticos, principalmente a cozinha ,de onde saíram as primeiras ìyálòrìsas muito destas tiveram sua independência fazendo doces e comidas típicas, posteriormente morando em casarões (cortiços) assumia a frente dessa comunidade.

Assim foi se estruturando no Brasil as primeiras egbes do Candomblé. Os homens nesse período não dançavam, nem entravam nas rodas de santo (sìre), aos homens eram dados postos de Ogá, Asogún.

O culto de Ifá ficou esquecido nesta etapa, porém vieram bàbáláwos Com a vinda dos negros escravizados para o Brasil, entre eles vieram alguns babalawos, mas não deixaram seguidores e a história de como o culto se perpetuou no país ainda não foi estudada em profundidade.

No entanto, temos conhecimento de muitos nomes: Martiniano Eliseu do Bonfim (1859-1943), também conhecido como Ojé L’adê, foi o grande precursor do retorno às raízes africanas e da busca de elementos capazes de fortificar as práticas religiosas dos negros ex-escravos. Considerado o “último Babalawo do Brasil” dos que vieram inicialmente.

O professor Júlio Braga analisa como esse processo de re-africanização das religiões afro-brasileiras na Bahia termina por reforçar o conceito de pureza nagô e alimentar o prestígio dos candomblés do povo de ketu, da nação yoruba. “O redescobrimento da África acontece inicialmente com Martiniano do Bonfim (como era mais conhecido) que vai em direção aos yorubas da Nigéria, com quem conviveu durante 11 anos”, destaca no livro Na gamela do feitiço – repressão e resistência nos candomblés da Bahia.

Tendo por volta dos 14 anos de idade (aproximadamente em 1875), Martiniano Eliseu do Bonfim faz uma viagem com o pai à África e aí aperfeiçoa seu yoruba e inglês, que aprende numa escola de missionários ingleses. Quando volta ao Brasil, 11 anos depois, Martiniano já é um babalawo. “As leituras de Martiniano em Lagos sobre as tradições yorubas, além de vasto corpo de tradição oral, com que sem dúvida se familiarizara, é que lhe permitiram recriar os títulos de Obá de Xangô”, conclui Braga.

Com a dispersão ocasionada pelo tráfico de escravos na África, diversos cultos praticamente desaparecem em seus locais de origem. Em 1886, o Ketu foi completamente destruído pelas guerras contra Abomey e o culto ao orixá Oxóssi, tão importante na Bahia, tornou-se aí praticamente esquecido.

Um comentário de Pierre Verger, citado por Mestre Didi, no livro Axé Opô Afonjá, dá conta da surpresa do rei de Osogbo ao presenciar um ritual para Oxum no Opó Afonjá. Ele “se mostrou impressionado pelo profundo conhecimento que ainda se tem na Bahia dos detalhes do ritual do culto àquela divindade”, conta. O próprio título de Iyá Nassô de Mãe Senhora “é um posto destinado em Oyo, à sacerdotisa encarregada do culto a Xangô, no interior do Palácio do Àláàfin de Oyó”, completa Mestre Didi, que era filho carnal de Mãe Senhora.

Rodolfo Martins de Andrade ou Bangboshê Obitikô era babalawo africano; Manuel Rodolfo Bangboshê Martins, o comerciante e traficante de escravos, segundo pesquisas indica ser a mesma pessoa. Leodovico, Joaquim Obitikô, Faustino Dada Adengi, antigo mestre Bojé, Felisberto Sowzer, conhecido como (Benzinho), filho de Maria Julia Andrade Sowzer, criado em Lagos, veio para o Brasil com o sobrenome Sowzer (corruptela de Souza) e foi um dos mais famosos babalawos no Brasil.

Na história, Tio Agostinho, vivendo nas Quintas das Brotas; Leodovico; Tio Beneditino; Joaquim Obitikô, original de Pernambuco; Faustino Dada Adengi, antigo mestre de Bojé. Em Recife também houve babalawos famosos: Vicente Braga (Atêrê Kanyi), seu filho Joaquim (Aro Moxégilema), Cassiano da Costa (Adulendju), João de Almeida (Gogosara), seu filho, Cláudio (Bangboshê ou Oya-di-pe); João da Costa (Ewé Turo, Osso Odubaladje), Tio Lino (Abeleiboja), José Bagatinha (Ogunbii), enfim, Alanderobê e outros; donde que se tem conhecimento foram os últimos babalawos.

Pierre Edouard Leopold Verger, fotógrafo francês que veio para o Brasil em 1946 foi também iniciado em Ifá na África como Awófãn e Ketu (Daomé), em 1953, tornando-se Fatumbi, “renascido em Ifá”. Profundo estudioso e conhecedor das culturas e religiões tradicionais africanas e religiões afro-brasileiras, Pierre Verger é autor de inúmeras obras de referência sobre o assunto, foi um fotógrafo e etnólogo autodidata franco-brasileiro. Assumiu o nome religioso Fatumbi e que dedicou a maior parte de sua vida ao estudo da diáspora africana – o comércio de escravo, as religiões afro-derivadas do novo mundo, e os fluxos culturais e econômicos resultando de e para a África.

Outro Sacerdote, dedicado ao Merindilogun e muito respeitado foi o professor Agenor Miranda Rocha, angolano de nascimento. Iniciado aos 5 anos de idade por Mãe Aninha, iyalorixá fundadora dos Terreiros Ilê Axé Opô Afonjá de Salvador e do Rio de Janeiro. Pai Angenor vivia no Rio de Janeiro, trabalhando como professor. Foi autor de muitos livros importantes para a compreensão do Oráculo de Ifá no país.

Agenor Miranda Rocha, o Pai Agenor, (Luanda, Angola, 8 de setembro de 1907 — Rio de Janeiro, 17 de julho de 2004) foi um babalorixá do Candomblé. Era professor catedrático aposentado do Colégio Pedro II, estudioso e adivinho do candomblé, o brasileiro que mais conheceu a herança e a cultura afro-brasileira.

Os homens também foram iniciados no culto do Candomblé e posteriormente surgiram os primeiros bàbálòrìsàs.

Estes assumiam o mesmo papel como as mulheres no culto e aqui “o homossexual também começa a ganhar destaque dentro do culto”, este antes negligenciado pela igreja católica, se encontra dentro do Candomblé sem barreiras preconceituosas.

Ser pai então dentro do contexto religioso, para o Candomblé, seria no mesmo modelo maternal que foi instaurado.

No Ifaismo, como dito no inicio, é um termo dotado àqueles que ensinam algo (daí o termo de pai no sentido de detentor, quer seja conhecimento, proteção, etc).

O Awo é aquele que transmite aos seus discípulos e iniciados os conhecimentos de Orunmila.

Já se diz atualmente no Brasil de Iyánifá, ser o memo conceito de awo “feminino”, o que em Ifá para muitas famílias é um equivoco, pois a mulher já tem cultos ditos femininos e um poder superior, sendo em muitos cultos essa energia positiva ou negativa.

A questão aqui não é propor a função da mulher ou homem no culto, mas mostrarmos a diferença do termo “bàbá” e seu sentido prático.

Bàbá, traduzido pai, também se diz mestre, professor. A relação de um Awo com seus discípulos é de mestre, pois não se cria vinculo familiar como no caso do Candomblé, mesmo muitos Awo se apresentar falando pertencer a “tal família”, isso seria uma forma de mostrar sua “origem”.

Quando uma pessoa se inicia e vira um discípulo aprendiz, ele se inicia a si mesmo, ou seja, é para o auto conhecimento e evolução mental e espiritual através dos princípios de Ifá. Uma pessoa se iniciar não diz que a mesma será um Awo, este caminho será dado se assim for do destino desta pessoa e a mesma passará anos estudando e aprendendo e passará por rito especifico para ser um Awo.

Ser pai é ser mestre, professor, ensinar com zelo e conhecimento, criar, proteger e muito mais.

O sacerdote é apenas um mestre que orienta seus discípulos, tanto que um fato que gera sempre muitas rusgas no meio religioso é o momento de se pagar pelos ritos e ensinamentos, o brasileiro interpretando os Bàbá como pai carnal, se acham no direito de terem tudo de graça, como uma obrigação, e esquecem que muitos desses pais vivem e estudam muito para poder passar esse conhecimento e tem seu trabalho desmerecido.

Não mencionamos aqui obviamente os falsos enrustidos no meio, para serem comerciantes, nos focamos nos verdadeiros sacerdotes que não tem apoio de seus próprios discípulos. Em uma sociedade que vemos diariamente os filhos carnais menosprezando os próprios pais, o que se esperar então em um fator religioso?!

Em resumo, pai no sentido religioso, expressa simplesmente um sacerdote mestre, que ensina os ritos; pode-se obviamente ter um carinho paternal por seu “mestre”, mas saibamos distinguir e termos o paternalismo deixado para nossa família carnal.

Muitos dizem os sacerdotes serem comerciantes ou frios por este aspecto, cabe aqui separarmos e sermos maduros em valorizar o trabalho deste oficio religioso, daqueles que estudam, se dedicam para passar os verdadeiros ensinamentos.

Ire o!

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Oluwo Ifagboun Ajisafe

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ESCRITO POR
Olùwò Ifagboun Ajisafe

Mestre de Ifá consagrado em Lagos, Ṣàngó Walé, Alapini Ojeleke e Oluwo Ogboni.

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