O Conceito de Principado na Cultura Ioruba e a invenção de títulos religiosos.
Autor: Luiz L. Marins
Revista Olorun, n. 14, setembro de 2014
Algumas vezes vemos iorubas que são apresentados na mídia afro-brasileira como príncipes ou princesas. Nações religiosas afro-brasileiras orgulham-se de terem sido formadas a partir de um personagem histórico africano, geralmente um príncipe ou princesa.
Estudos acadêmicos questionam ou exigem a prova científica do alegado título, e na maioria das vezes, refuta-o, por falta de provas.
Ocorre que o conceito de principado entre os Iorubas é diferente do nosso, e por isso, a tal prova nunca existirá. Para nós brasileiros, príncipe e princesa são títulos que só podem ser atribuídos aos filhos biológicos do rei.
Quando um Ioruba se apresenta como príncipe ou princesa, não necessariamente ele precisa ser filho biológico. Entenda: ele não está dizendo que é filho do rei, está dizendo apenas que possui este título, e que isto é verdadeiro (para ele).
Ocorre que entre os Iorubas, a partir da data de coroação de um novo rei, todas as crianças que nascerem no clã (ìdílé) de origem deste rei, tem o direito de usar o título de príncipe ou princesa. Isto é perfeitamente legal e honesto dentro de sua cultura.
Este conceito de principado, desconhecido entre nós, é usual entre eles, e assim esclarece, o sacerdote Nathan Aikulola:
“Nathan Aikulola Fawehinmi … de qualquer forma, para todos aqueles que não estão familiarizados com a Cultura Ioruba na África Ocidental, um príncipe ou uma princesa, na Iorubalândia, é qualquer pessoa nascida no ‘lugar’ de onde foi escolhido, e não necessariamente um filho ou filha do rei vigente, e normalmente não são. ”
Portanto, quando tratar-se de conceitos da África Negra, convém ouvirmos a fala de Fábio Leite, ex-Presidente do Centro de Estudos Africanos da USP (Universidade de São Paulo), no vídeo “África Profunda”, gravado para a Casa das Áfricas. Falando de sua pesquisa de campo, no minuto 49, assim aconselha: “esqueçam tudo, ouçamos que ‘eles’ tem para dizer.
Enfim, em nossa cultura nacional e mesmo para aqueles que pertencem ao culto yorùbá não existe a questão de “príncipes, reis, rainhas, princesas” em caráter religioso.
Existe somente a figura de àrabá em Ifá.
ARABA (Oluawo)
O titulo de Araba é o mais importante dentro do culto de ifá, normalmente em terras yorubas um Araba é escolhido com base em três critérios:
-Conhecimento inquestionável
-Conduta ilibada
-Apoio unânime
O Araba representa o grupo de Bàbáláwòs de uma cidade ou de um país, o que nos leva a seguinte conclusão, as cidades com maior população de Bàbáláwòs tem um critério de escolha mais exigente do que as cidades de pequenas populações.
Em uma cidade grande para que um Bàbáláwò se torne um Araba ele será questionado por um grupo maior de sacerdotes.
Esses questionamentos podem durar dias, e somente quando todos Bàbáláwòs estiverem satisfeitos com as respostas, a data da cerimonia será marcada.
Observação: em uma cidade muito pequena com um grupo muito pequeno de Bàbáláwòs a escolha de um Araba pode ser imediata desde que exista o apoio do grupo.
Existe também uma forma carinhosa de intitular o Bàbáláwò mais velho em um Ile Ifá que muitas vezes é confundido com o acima mencionado, já que carinhosamente o mais velho dos sacerdotes dentro da família pode ser chamado de Araba, importante não confundir esse titulo familiar restrito a casa da família com o Araba de uma cidade ou de um país.
Portanto a criação de títulos muitas vezes é mera invenção para “vender” uma imagem; assim como a ostentação e criação de “obrigações desnecessárias”.
Na Nigéria, por exemplo, existe o culto de Ifá, culto de Òrìsà, de Egungun e sociedades especificas destes cultos.
Um sacerdote de Òrìsà, muitas vezes na África, é iniciado em apenas um Òrìsà, ou em alguns casos até três, cinco, porém diferente de Brasil que muitos querem ser tidos como conhecedores de tudo na realidade pouco sabem.
Se iniciar em um Òrìsà e conhecer tudo sobre o mesmo já é um ato que em África pode levar a vida toda, o que se dizer de querer saber de todos?
Assim como em Ifá, que um Awo deve decorar versos, histórias, receitas, é humanamente impossível se dizer conhecedor de tudo.
Sendo assim, desconfie de “quantidades” e preze pela qualidade.
Autor: Luiz L. Marins
Revista Olorun, n. 14, setembro de 2014
® ARTIGO DE Luiz L. Marins
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Respostas de 3
PARABENS PELA POSTAGEM E GRATO PELO ESCLARECIMENTO
Na cultura iorubana,país biológicos podem iniciar seus filhos ??
Sim sem problemas.