Reflexão sobre o ensino religioso. Basta ser africano?
Finalmente “todos” falam de Ifá atualmente no Brasil! Seria muito bom, se não perdessem o sentido da mesma filosofia. Pois tenho observado muito o velho ranço de “hábitos” que são opostos mesmo às religiões da diáspora africana.
Como sempre a questão são “títulos de nobreza, ostentação, mentiras e vaidades falam muito mais alto”.
Será um hábito religioso nacional devido ao sistema capitalista que nos empurram goelas abaixo?
Como sempre digo, a religião atualmente e desde o passado, é composta de elementos de interesse politico, econômico e sexual.
Em resumo, politico pelas trocas de interesses, favores e obtenção de “status”, vide a questão de por exemplo, festas de candomblés que uma comunidade visita outra, para sua divulgação pessoal, muitas vezes apenas criticando o demais.
Questões econômicas, que nem precisa citar exemplos. E a dita questão sexual, que ocorrem muitos abusos, assédio , e “troca de favores” de muitos ditos “sacerdotes”.
Porém como sempre ressalto, são pessoas que se dizem ser… algo que jamais serão… sacerdotes ou dignos de pertencerem a qualquer segmento religioso.
O ifaismo, como modo de vida e conduta jamais se enquadrará para esse ditos pseudo sacerdotes.
A mais de 30 décadas via Pierre Verger discorrer sobre o assunto, que até então só quem viajará até a África e tinha um difícil acesso a estas informações e claro muito dinheiro, eram recebidos pelo africano.
Descoberto este “filão”, que se mantém até hoje, ao ensino da língua, acrescentou-se o ensino religioso, de aspecto duvidoso, pois nem todos os mestres eram ligados aos ÒRÌSÀ.
E os filhos, que aprendiam o sagrado com estes professores, logo partiram para o desafio, a princípio velado, e depois aberto, com seus sacerdotes, numa disputa de conhecimento que fazia com que velhos pais e mães cada vez mais se fechassem e se defendessem contra o conhecimento yorùbá moderno.
E quanto mais os jovens cobravam e exigiam que seus recém descobertos ritos fossem aplicados, mais os pais e mães os isolavam, com argumentos sem solidez e sem lógica, indefesos que eram contra o desafio inusitado. Até então, o saber dos pais não era para ser discutido e questionado.
Frente a esta nova geração de filhos atrevidos e desobedientes, buscavam velhos chavões como :
“Serviu para meu pai e meu avô, serve para mim”
“Cabeça que estuda e lê não serve para receber ÒRÌSÀ”
“Já sei tudo o que necessito, não preciso aprender mais”
“Trabalho assim há anos, não se mexe no que está dando certo”
E, negando-se sequer a ouvir os filhos, rompiam com eles vínculos de ASÈ que vinham de anos de iniciação, escudados no medo de “não saberem tudo”, ou na possibilidade do “conhecimento moderno”.
E o outro lado da questão também tem que ser analisado: Poucos eram os nigerianos que realmente praticavam ÒRÌSÀ. Na sua maioria islâmicos ou cristãos protestantes, logo descobriram no jovem sacerdote brasileiro um filão inesgotável de ingenuidade e dinheiro fácil.
Bastava ser “africano” para ser acreditado!
Não importa que os nigerianos tivessem uma ligeira casca de conhecimento, adquirida por vezes às pressas em literatura nem sempre confiável, ou saber religioso extremamente superficial, trazido após revés períodos de férias na terra natal, gastas em pesquisas em bibliotecas ou com os mais velhos da família, juntamente com quilos de material para ser vendido aos incautos. Se era “africano” servia.
Assim, inúmeros sacerdotes abandonavam as práticas afro-brasileiras pelos novos caminhos do ASE. Ou a elas acrescentavam muitas novidades recém-aprendidas, teorias literárias que eles se incumbiriam de pôr em prática, com grande gasto financeiro e maior desgaste emocional frente a seus pares no ASE.
Pelas sendas da desilusão, foram aos poucos percebendo que esta africanidade era ilusória, e seus olhos cada vez mais se puxavam para o solo da Nigéria, do Benin, de achar lá o que não tinham aqui.
No seu íntimo, algo se agitava; uma necessidade, um anseio, uma angústia, como se o stress desencadeado pela premência do conhecimento, pela ilusão trazida pelos novos Yorùbás, fizesse vir à tona profundidades do seu imaginário, fantasias criadas por amor aos ÒRÌSÀ.
E só bem mais tarde, ou talvez nunca, eles descobririam ter aberto as portas do Orun e trazido lá do fundo resquícios da memória ancestral, o emi, aquele sopro de Olodumare, o Deus criador, que acompanha cada ser humano em seu trajeto pelo mundo.
Porém muitos comerciantes nigerianos que chegaram a décadas atrás, com lojas de artigos religiosos, que muitos vi venderem produtos ditos de procedência africano e muitos são falsificados e fabricados aqui mesmo em solo pátrio. Despencaram aqui com o termo de “em terra de cego, quem tem um olho é rei”, se auto intitulando príncipes, reis e descendentes diretos de Oduduwà….
Hoje esta ocorrendo a moda da “casta de famílias de Ifá”.
Em resumo, faz se o marketing da tal família com fotos de ditos Awos e Arabás africanos, para se dizer que tem “origem, raiz”, como de costume no candomblé; lembrando que muitos desses ditos awos e arabás são muçulmanos praticantes que utilizaram desse quinhão de favorecimento para enriquecimento através da fé, de forma totalmente oposta aos ensinamentos de Orunmilà.
Infelizmente o presente e futuro, será de um novo tipo de candomblé fundido aos elementos do ifaismo, com elementos esotéricos, kardecista, umbandista e tudo mais que puderem colocar no mix de liquidificador de “sabedores potetentes” para dizer que você não sabe nada, que ele é o “rei” e papa atual da nova dita religião que nasce.
A estes incautos digo, Orunmilà tudo vê e Olodumare nos conhece por nosso coração, não por títulos, fotos e vaidades.
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Se você esta aqui é porque Ifá lhe encontrou, agora você deve encontrar Ifá!
Oluwo Ifagboun Ajisafe
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