
Restituir: restaurar a força
Vimos que as Iyami, também chamadas Eleye, Aje, Eniyan, Iya-agba, para poderem cumprir sua função necessitam ser fecundadas, umedecidas, restituídas. A terra, associada ao que é seco e quente, precisa ser umedecida continuamente, recuperar o “sangue branco” para poder propiciar novos alimentos.
Diz Elbein dos Santos (1986:81): Para engendrar, Nanã precisa ser constantemente ressarcida. Recebe em seu seio os mortos que tornarão possíveis os renascimentos. Esse significado aparece manifestamente em um de seus oriki: Ijuku-Agbe-Gba/ Inabitado país da morte, vivemos (e nele) iremos ser recebidos. A restituição é expressa também pelo fato de Nanã carregar na mão direita um ibiri, que significa meu descendente o encontrou e o trouxe de volta para mim.
A terra, igba-nla, a grande cabaça, recebe os corpos mortos que lhe restituem a capacidade genitora e tornam possíveis novos nascimentos. Assim, todo renascimento está relacionado com os ancestrais. A restituição e o renascimento estabelecem e preservam as relações entre orun e aiye. Por isso os ancestrais garantem a continuidade da vida no aiye.
Os orixás, associados a elementos cósmicos ou à natureza, significam matérias simbólicas de origem enquanto os ancestrais, significam princípios de existência genérica a nível social. Uns e outro são genitores. Na feliz expressão de Elbein dos Santos (1986:220), são matérias-massas de cuja interação nascem ou se desprendem descendentes-porções. Para preservar a dinâmica e o equilíbrio entre os componentes do sistema é preciso restituir, redistribuir o axé. O nascer e o renascer podem ser entendidos como um processo de desprendimento de uma porção da matéria-massa de origem, o que determina perda de axé dessa massa genitora. A restituição exige transformação: de existência individualizada a genérica, passando pela morte e, na outra via, de existência genérica a individualizada, no nascimento e renascimento de descendentes-porções, cada qual parte integrante de um único todo.
Toda restituição demanda destruição de matéria individualizada que, uma vez reabsorvida, nutre a massa genitora restaurando seu axé. Talvez esteja nessa necessidade imperiosa de ser constantemente ressarcida e umedecida para poder procriar com abundância a razão da já mencionada ambivalência do poder feminino, tão freqüentemente expressa em mitos e ritos.
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