A biografia do meu DNA físico e espiritual
No Ọ̀run e na profundidade do meu destino, sou conhecido como Oluwo Ifagboun Ajisafe, batizado na força do trovão como Ṣàngó Walé, investido no trono dos ancestrais como Alapini Ojeleke e coroado na sacralidade da Mãe Terra como Oluwo Ogboni.
Para compreender quem sou hoje, não basta olhar para o espelho do presente; é preciso escutar o eco da água que corre no tempo e ler as marcas que a história gravou no meu sangue e no meu Orí. Minha história não começou no dia do meu nascimento, nem na terra paulistana onde vi a luz pela primeira vez. Ela começou há centenas de milhares de anos, em um ciclo épico de migração, resiliência e propósito espiritual.
Se eu pudesse viajar até a origem da primeira célula da minha existência, eu me veria no Leste do Continente Africano, nas terras sagradas do Vale do Rift — onde hoje se deita a Etiópia. Ali, sob o sol primordial da Terra, andou o meu primeiro ancestral. Ele era a própria semente da humanidade (Homo sapiens). Dali, a minha linhagem biológica iniciou uma jornada sem volta pelo planeta. Enquanto parte daquele sangue original continuou a habitar o solo africano — desaguando, séculos mais tarde, nas terras da África Ocidental que formaram a cosmologia do povo Iorubá —, outra parte dos meus ancestrais cruzou continentes. Atravessou a Ásia Central, viveu nas estepes da Eurásia e ingressou na Europa. Mas o destino, em sua infinita sabedoria, já havia traçado que essas duas pontas do meu DNA iriam se reencontrar no futuro.
Atravessando os milênios, minha linhagem paterna fixou-se no Norte de Portugal, nas terras abençoadas de Meixomil, em Paços de Ferreira. Ali ergueu-se a Casa do Fontelo, onde a água brotava fresca das nascentes da terra — uma água tão marcante que deu nome ao meu sangue: Fonteles. Em 1687, nasceu meu ancestral Manoel Ferreira Fonteles. Ele cruzou o Atlântico e desembarcou no Ceará colonial. Apelidado de “Adão do Vale do Acaraú”, Manoel fincou raízes na Fazenda Tucunduba e uniu seu sangue ibérico ao sangue nativo da terra, relacionando-se com a indígena Tapuia Maria Fernandes. Essa força ancestral se estabeleceu no Ceará e germinou em duas terras fundamentais da minha história:
A terra de minha mãe, Maria do Socorro Fonteles Fernandes, onde a linhagem dos Fonteles do Vale do Acaraú se consolidou, carregando a memória profunda das águas, das origens ibéricas, indígenas e africanas.
A terra de meu pai, Francisco Everardo Fonteles d’Oliveira, berço de serras, verdejante e de fibra sertaneja, que honra o tronco dos Fonteles e moldou o equilíbrio, a força de trabalho e a garra da minha linhagem paterna.
Dessa união entre a raiz de Sobral e o tronco de Maranguape, nasci em 20 de abril de 1976, no coração da capital paulista, no histórico e multicultural bairro da Liberdade, em São Paulo. Vir ao mundo na Liberdade em 1976 foi a metáfora perfeita da minha própria existência: um lugar de encontro de culturas, de resiliência, de diversidade e de caminhos abertos.
Ainda que os olhos do mundo enxerguem em mim a pele clara, a fenotipia branca e a tez dos meus antepassados do Minho, a ciência e a ancestralidade não mentem. O meu DNA autossômico prova e carrega com orgulho a totalidade dessa história: nas minhas hélices genéticas vibram, lado a lado, a força ameríndia das matas brasileiras, a persistência europeia e a essência matricial africana. A ancestralidade não se limita à superfície da pele; ela está gravada na profundidade da medula, no código da vida e na vibração do espírito.
“Não é o exterior que opera o Àṣẹ — é a sabedoria ancestral guardada no meu sangue e despertada pelo meu Orí.”
Como sacerdote consagrado no Culto de Ṣàngó, de Ifá, da Sociedade Ogboni e de Egungun, a minha pele reflete o respeito e a bagagem dos meus ancestrais ibéricos, mas a minha alma e o meu DNA falam com a autoridade viva dos meus ancestrais africanos. Quando a pedra de raio (edun àrá) vibra, quando os edan Ogboni fundem o bronze da terra, quando o ọpọ́n Ifá acolhe os sagrados ikin, ou quando os segredos litúrgicos se realizam, não é o exterior que opera o Àṣẹ — é a sabedoria ancestral guardada no meu sangue e despertada pelo meu Orí.
O meu chamado espiritual manifestou-se na mais tenra infância. Aos 7 anos de idade, fui iniciado no Candomblé Ketu, no seio de uma tradicional Casa Matriz baiana. Ali, ainda menino, meus pés aprenderam o chão sagrado, minhas mãos tocaram as folhas e minha alma começou a ser moldada pelo fundamento e pelo respeito aos Òrìṣà. Na juventude, vivendo no bairro da Vila Maria, na zona norte de São Paulo, o meu caminho cruzou-se com a vivência direta e o convívio diário de africanos que ali residiam e trabalhavam. Esse contato estreito com a linguagem, os costumes, a mentalidade e os hábitos nativos da África Ocidental expandiu meus horizontes e preparou o meu Orí para o passo seguinte.
Essa busca pela fonte matricial desaguou na minha entrada e dedicação absoluta à vertente africana original: há 28 anos sou iniciado dentro do Culto Tradicional Iorubá, uma caminhada de quase três décadas de aprendizado ininterrupto, estudo dos Odù, das medicinas rituais e da filosofia ancestral. Paralelamente à jornada litúrgica, busquei o rigor acadêmico para fundamentar minha atuação:
A ciência alopática, a química dos medicamentos e a botânica acadêmica uniram-se no meu ser ao saber ancestral das folhas sagradas (ẹwẹ) e das preparações rituais.
Entendendo que a tradição oral Iorubá é estruturada através do poder vibracional e semântico do verbo (Ọ̀rọ̀), graduei-me em Letras pela Universidade Cidade de São Paulo.
A análise linguística, a filologia e a hermenêutica acadêmica tornaram-se ferramentas essenciais para que eu pudesse compreender a palavra em sua totalidade — traduzindo, analisando e preservando com extrema precisão os versos dos Odù, os encantamentos (ofọ̀) e as rezas litúrgicas originais. Hoje, atuando há décadas exclusivamente como Sacerdote, uno o olhar do farmacêutico ao domínio do linguista para oferecer um trabalho focado na pureza ortodoxa do culto tradicional iorubá, preservado sem misturas, sem sincretismos e fundamentado na raiz autêntica transmitida pelos grandes mestres.
A consolidação do meu sacerdócio encontra o seu fundamento máximo na história e na autoridade da minha Família Espiritual Ajisafe de Lagos (Èkó).
A linhagem Ajíṣàfé (“Aquele que desperta para a nobreza, dignidade e paz”) é um dos pilares históricos de erudição, preservação cultural e liderança sacerdotal no sudoeste da Nigéria. Guardiã da ortopraxia do culto, a família Ajíṣàfé em Lagos destaca-se pela preservação das leis nativas, do sacerdócio de Ifá e da sacralidade da Mãe Terra (Ilẹ̀) na Sociedade Ogboni.
Ao cruzar o Atlântico rumo a Lagos, o meu Orí foi acolhido por esta família espiritual secular, concedendo-me a legitimidade e as coroações sacerdotais:
Consagrado no culto ao rei do trovão e da justiça, recebendo a alcunha sagrada de Ṣàngó Walé (“Ṣàngó voltou para casa”).
Consagrado em Lagos como Mestre de Ifá (Oluwo), carregando a honra do nome Ajíṣàfé.
Investido como autoridade suprema (Alapini) no Culto aos Ancestrais (Ẹ̀gúngún), tendo como patrono sagrado Babá Egungun Arowosojú.
Mestre e autoridade máxima na venerável e sagrada Sociedade Ogboni, guardião dos mistérios do bronze, do julgamento reto e da aliança indissolúvel com a Mãe Terra (Ilẹ̀).
A coroação espiritual e a bagagem de vida precisavam de um solo firme para frutificar e servir à comunidade. Há 12 anos, fundei o Ilẹ́dí Ifagboun Ajisafe em Suzano. Como Oluwo Ogboni, estabeleci nesta terra o templo sagrado da Sociedade Ogboni, construído do zero, fundado e reconhecido formalmente no Brasil diretamente por minha família espiritual Ajíṣàfé de Lagos. A Ilẹ́dí tornou-se, assim, um bastião da ordem, da justiça tradicional e da preservação dos ritos sagrados de Ilẹ̀.
Nessa jornada, conto com o pilar central do meu lar e do meu sacerdócio: minha esposa, Luciana Fernandes, consagrada como Abiye Edan Gbemi da Ilẹ́dí Ifagboun Ajisafe. Luciana é o suporte da minha vida, da minha alma e do meu sacerdócio, a força feminina que sustenta com amor, sabedoria e dignidade a nossa caminhada espiritual e familiar, Apetebi.
Para dar suporte jurídico, social e cultural a esse trabalho, fundei a ACCA (Associação de Cultura Conexão Africana). A ACCA nasceu com o propósito de preservar a cultura Iorubá em sua forma mais pura, promovendo a educação, o diálogo intercontinental e a assistência social. Com filial também em Lagos, a associação consolida a ponte transatlântica viva entre o Brasil e a Nigéria. A instituição está estabelecida em sua Sede Própria, localizada na Rua Paulo Gonçalves Capela, 106, Chácara Estância Paulista, Suzano – SP, funcionando como o coração pulsante onde a Tradição autêntica, a caridade, a ciência medicinal e o acolhimento comunitário se encontram diariamente.
Minha missão sacerdotal visou sempre o despertar das consciências e o registro formal do saber litúrgico:
Desde os primórdios da internet comercial no Brasil, em 1998, participei ativamente da fundação e mediação dos primeiros grupos de discussão digitais sobre religiosidade de matriz africana, desbravando o uso da tecnologia para conectar praticantes e combater o preconceito.
Idealizei e apresento há mais de uma década este programa que difunde a cosmologia iorubá, história, ética e espiritualidade prática, alcançando milhares de ouvintes no mundo todo.
Como escritor e pesquisador da tradição, sou autor dos livros:
Obra em que me aprofundo na dinâmica cosmológica, na complementaridade litúrgica e no pacto primordial entre o Testemunho do Destino e o Pilar da Ordem.
Obra dedicada à exegese filosófica, aos versos sagrados e à aplicação prática dos Odù no sacerdócio e na vida cotidiana.
Ministro cursos e workshops sobre Ifá, Ògbóni, Egungun e botânica ritual. Atuando estritamente dentro da ortodoxia de Ifá, não realizo jogo de búzios, mas sim as consultas sagradas através do Ọ̀pẹ̀lẹ̀ Ifá e dos Ikin Ifá (Dafa Ifá), oferecendo orientação oracular de alta precisão presencialmente e online.
Um verdadeiro Oluwo, Alapini e líder Ògbóni não constrói apenas para o seu tempo; ele planta a semente da árvore cuja sombra abrigará as próximas gerações. O propósito que move os meus dias hoje é a garantia da continuidade e da imortalidade do nosso trabalho.
Para a ACCA, o horizonte futuro é de franca expansão. O propósito é consolidar a Associação como o maior polo de referência, estudo e assistência de matriz africana, fortalecendo a filial em Lagos e ampliando os projetos sociais em Suzano. A ACCA continuará a ser a ponte estruturada onde as futuras gerações poderão beber da fonte inesgotável da cultura Iorubá.
Quanto à Ilẹ́dí Ifagboun Ajíṣàfé, o seu legado é a consagração da minha própria existência. Como Oluwo Ògbóni, Alapini Ojeleke e Oluwo Ifagboun, o propósito futuro da Ilẹ́dí em Suzano é a continuidade irrestrita da pureza litúrgica. Ao lado da Abiye Edan Gbemi, preparamos o terreno para que os nossos Ọmọ Awo perpetuem o culto sem misturas, mantendo vivos os ofọ̀, o manejo reto do Ọ̀pẹ̀lẹ̀ e dos Ikin, os ensinamentos registrados em meus livros autorais Ọ̀rúnmìlà e Èṣù e Ensinamentos de Odù, os ritos de Ògbóni, o culto a Babá Egungun Arowosojú e os segredos da Terra.
Quando o meu tempo na terra (Ayé) se cumprir, a Ilẹ́dí permanecerá erguida como uma escola e um templo perene da família Ajíṣàfé no Brasil, garantindo que o pacto com a Mãe Terra e a voz de Ọ̀rúnmìlà jamais se apaguem.
Hoje, diante dos Òrìṣà, de Ṣàngó, de Babá Egungun Arowosojú e do solo sagrado de Ilẹ̀, compreendo que a minha existência é um tecido perfeito onde cada fio cumpre o seu propósito. A ciência do farmacêutico e o verbo do linguista não se opõem à mística do sacerdote; antes, sustentam-na com o rigor da técnica e a pureza da exegese, transformando o conhecimento em um farol de clareza e verdade.
Na cadência do Ọ̀pẹ̀lẹ̀ Ifá e no toque firme dos Ikin, não ecoa apenas a minha voz, mas a polifonia milenar de uma linhagem que atravessou milênios e oceanos.
É a fusão definitiva entre o sangue ibérico que moldou meus passos e o Àṣẹ africano que despertou o meu Orí — desde os primeiros ensinamentos na infância até a autoridade consagrada em Lagos e consolidada em Suzano ao lado da minha companheira, Abiye Edan Gbemi.
Mais do que um título ou um templo, o meu legado reside na permanência da tradição inalterada, transmitida com a sobriedade de quem compreende que a verdadeira sabedoria não se impõe, cultiva-se. Quando o ciclo desta jornada terrena se completar, a semente plantada no Ilẹ́dí Ifagboun Ajíṣàfé e nas páginas dos meus livros continuará a germinar, garantindo que a ponte entre o Ayé e o Ọ̀run permaneça aberta, firme e indestrutível.
Eu sou a travessia. O ponto exato onde a história do mundo encontrou a eternidade de Ifá.
Eu sou Oluwo Ifagboun Ajíṣàfé — Ṣàngó Walé, Alapini Ojeleke, Oluwo Ògbóni.