
O núcleo religioso do Candomblé é centrado em alguns estados, como a
Bahia, Maranhão, Recife e Sergipe, onde existem inúmeros Templos
centenários que se poderiam chamar Casas-mãe – Templos antigos,
plenos de saber e poder, dirigidos por sacerdotes que lutaram e lutam
por manter a religião defendida de todo assédio da cultura branca
ocidental, fizeram de seus santuários, ilhas rodeadas de outras
crenças antigas e emergentes.
Estes pais e mães, que mantiveram por anos a religião viva,
enfrentando o senhor de engenho, o padre católico, a polícia, a
sociedade preconceituosa, lutam por manter a religião coesa, e
ensinam vagarosamente sua descendência, mas nada podem fazer quando
os filhos, mal são iniciados, se afastam e começam a agir sozinhos.
À medida em que o culto vai se afastando destas Casas-mãe, e
principalmente descendo para o Sul, para o Rio de Janeiro e São
Paulo, mais disperso se torna, mais brasileiro e menos afro, seja em
adaptações regionais quanto à oferenda de alimentos, seja em
desconhecimento quase total quanto a cantigas e rituais.
As gerações se sucedem muito rapidamente, e algumas Casas-mãe podem
estar 10 a 15 gerações à frente, aqui no sul, em curto espaço de
tempo.
Isto certamente contribui para diluir a essência do conhecimento
ancestral, uma vez que não há tempo hábil para o aprendizado regular,
e estes novos sacerdotes, ávidos de serem também pais e avós, fazem-
no muito cedo, sem o amadurecimento e a sabedoria necessários.
Surgiu também um estranho sincretismo entre as nações de Candomblé,
que permite a uma pessoa iniciada no culto Angola a Inkisse Zaze,
seja aceita em seguida na nação Gege, dando “obrigação”, ou seja,
fazendo cerimônias ao Vodun Sogbo ou Heviosso, e passe depois para a
nação Ketu, onde é aceito como Sacerdote iniciado para ÒRÌSÀ SÀNGÓ.
Como se fossem todos iguais, as nações, os deuses, as iniciações, as
energias.
Certamente, a perda de tempo e de ASE que se origina deste modo de
proceder contribui para mais confundir o devoto do Candomblé, que não
compreende serem as nações religiões diversas com deuses
particulares, e não faces diferentes de uma mesma crença.
*ÌYÁLÒRISÁ Sandra Medeiros Epega
ÌYÁLÒRISÁ do Ile Leuiwyato – Templo de Culto aos ÒRÌSÀ
Presidente da ONG Respeito ao Brasil Yorùbá /SP
